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terça-feira, 25 de novembro de 2025
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A PLACA

A minha aluna virou uma Placa. Há três meses ela deixou de vir à escola por isso: virou uma Placa. E não uma placa qualquer, de trânsito, que ninguém respeita. Ela virou uma Placa publicitária. Agora tem uniforme, endereço e identidade. Não fica mais à margem. Fica na porta dos shoppings, concessionárias e futuros edifícios, se auto-promovendo: A Placa. Com pernas.
A minha aluna virou uma Placa. Ela diz sentir muito orgulho da empresa em que trabalha. Construtora. Grande. Bem conceituada. Vende casas de alto padrão, para pessoas de bem, alto poder aquisitivo. Luxo. Seus condomínios têm quadra de tênis, piscinas, bancos; centro de compras particular, segurança e conforto. Diz que a tendência do futuro são os ricos não saírem mais de suas caixas, seus bunkers. Para eles tudo será Prime, Van Gogh. Personalité.
A minha aluna virou uma Placa. Aconteceu na porta da escola. Um homem parou o carro importado, abaixou o vidro e disse: - Você leva jeito para Placa. Um cara branco, alto, malhado; peito raspado, gel e gravata. Big boss. Ele não perguntou idade, se tinha experiência ou carteira registrada. Pediu apenas para tirar o óculos, soltar o cabelo. Pronto. Bonita. Está contratada.
A minha aluna virou uma Placa. Ela diz que trabalha numa empresa ética, séria. Não registram, mas pagam todos os impostos. Todo final do dia ela recebe o seu salário. E vai embora pra casa. A empresa só fez uma exigência: que deixasse a escola. Questão de escolha. O trabalho é das nove da manhã as sete da noite. Segunda a domingo. E sempre há um novo bico. Setor imobiliário em expansão. As propostas estão em expansão. Eles precisam de Placas. Ela já é uma Placa. Quem precisa de estudo?
A minha aluna virou uma Placa. Outro dia, pura sorte, eu a encontrei. Andando sozinha, pela noite, voltava do serviço. Descaracterizada. Não parecia ser a menina frágil dá sexta série que até outro dia eu conheci. A menina tímida que sonhava em ser modelo, e só estudava. Falei: - E aí? Você precisa voltar pra escola. Ela respondeu, em tom de deboche: Eu não! Já tinha uma profissão. Tinha seu próprio dinheiro, ajudava a mãe em casa. Responsável, não precisava mais de conselhos, não precisava de mais ninguém. Só do big boss, o chefinho. Aquele que lhe deu valor. Deu emprego, deu presentes, prometeu castelos. O único que não lhe fez se sentir mais como uma qualquer. A transformou numa Placa.
Uma Placa-viva.
conto retirado do livro TE PEGO LÁ FORA,
de Rodrigo Ciríaco. Edições Toró, 2008
Atividades
1) O conto afirma que a aluna "virou uma Placa". De que forma essa transformação, além de ser a descrição de um emprego, serve como uma crítica social do autor ao mostrar como o mercado de trabalho pode desumanizar e transformar as pessoas, especialmente as jovens e vulneráveis, em objetos descartáveis de publicidade?
2) O "big boss" é descrito como o único que lhe "deu valor" e lhe "deu emprego". Discuta se a decisão da aluna de abandonar a escola é uma "escolha" autônoma e responsável ou uma ilusão de sucesso, considerando a precariedade do emprego (sem registro) e o risco que ela corre ao aceitar presentes e promessas de um homem que a explora.
3) No segundo parágrafo, o autor descreve a riqueza dos condomínios usando repetidamente a conjunção "e" (ex: "segurança e conforto"). Que efeito de sentido essa repetição de ligamentos aditivos (polissemia) cria na descrição do luxo, e por que essa acumulação de adjetivos e bens contrasta de forma crítica com a situação de exploração da personagem "Placa"?
4) Ao encontrar a aluna "descaracterizada" à noite, o professor (narrador) lamenta que ela não precise mais de seus conselhos, pois o "big boss" a transformou numa "Placa-viva". Explique o que o narrador quis dizer com o termo "Placa-viva" e qual é a crítica final e amarga que ele faz sobre a nova identidade e a suposta "profissão" de sua ex-aluna.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
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